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História da Igreja
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Parte I Igreja AntigaO cristianismo é uma religião histórica, fundamentada em acontecimentos históricos. A humanidade sem Cristo está perdida porque está separada de Deus pelo pecado, e está sob sua condenação. O pecado que afeta todos os homens tanto em sua natureza quanto em sua culpa entrou no mundo através de um evento histórico: Adão foi um homem real, que desobedeceu a Deus num determinado dia do passado distante. Esse fato histórico afeta toda a humanidade. A nossa salvação se torna possível não somente porque Deus enviou seu Filho para morrer pelos pecados daqueles que crêem nele, mas também porque ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia. Esse acontecimento também foi um evento histórico. O apóstolo Paulo nos diz que sem a ressurreição, nossa fé seria em vão (cf. 1 Co. 15:16-20). A Igreja é uma comunidade histórica. Ela tem tanto influenciado a história da humanidade, quanto sido influenciada por ela. Todos os cristãos fazem parte da Igreja que Jesus tem edificado através dos séculos. O estudo da história da Igreja é fundamental para que possamos entender quem somos, de onde viemos, e o que cremos. Essa história é fundamental para o entendimento dos essenciais da fé essenciais que foram debatidos por séculos, e pelos quais muitos, em suas convicções, deram suas vidas. Por outro lado, essa história não é somente a história de idéias e crenças, mas de pessoas reais e eventos reais que afetam cada um de nós profundamente. Ainda que alguns protestantes possam pensar que não houve muitos cristãos verdadeiros antes da Reforma, tal idéia é um grande erro. A Reforma certamente corrigiu e reformou muito do que tinha se corrompido na Igreja inclusive o evangelho da salvação e nós, protestantes, derivamos as grandes bênçãos que ela trouxe. Os Reformadores, porém, não inventaram um cristianismo novo. Eles não estavam restaurando a Igreja verdadeira que teria supostamente sido perdida (como afirmam grupos heréticos como os Mórmons), mas purificando-a. Os Reformadores tinham um profundo conhecimento da história da Igreja e procuraram resgatar o que tinha sido distorcido, bem como proclamar a mensagem do evangelho que tinha sido afirmada e defendida através dos séculos, ainda que por muitas vezes apenas por uma minoria. O protestantismo é relativamente recente. A nossa tradição protestante tem existido apenas por um quarto da história da Igreja. 0 500 1000 1500 2000
É claro que isto não significa que o protestantismo é inferior à outras tradições cristãs. Muito pelo contrário, somos protestantes porque cremos que a nossa tradição reflete mais fielmente muitos dos ensinamentos bíblicos. Ainda assim, o protestantismo nunca negou verdades apostólicas essenciais do cristianismo como a natureza da Trindade, por exemplo que foram defendidas desde os primeiros séculos. Por isso, afirmamos que protestantes são católicos no sentido original da palavra (e não Católicos Romanos), porque protestantes sempre afirmaram as doutrinas essenciais da fé cristã. Os Reformadores, na sua época, não se referiam à Igreja Católica Romana como Igreja Católica, mas como Roma, ou Igreja Romana. Na perspectiva dos Reformadores, a Igreja Reformada era a Igreja Católica Reformada, pois foi a Igreja Romana que tinha deixado de ser católica, já que tinha abandonado o evangelho apostólico da salvação somente pela fé. Não podemos esquecer que a palavra católica significa universal, ou seja, a Igreja que Deus tem edificado em todo o mundo, fundamentada nos ensinamentos apostólicos Jesus sendo a pedra angular. Os Reformadores também argumentaram que a Igreja Romana tinha negado o caráter historicamente universal da Igreja (o verdadeiro significado da palavra católica) e passado a ser uma igreja centralizada no Papa em Roma ou seja, tinha deixado de ser a igreja católica para ser uma igreja regional, que negava o evangelho apostólico. O uso da palavra católica como uma referência à Igreja Católica Romana é um fato mais recente da história eclesiástica. A Igreja PrimitivaO cristianismo primitivo se desenvolveu inicialmente e simultaneamente em duas culturas: judia e greco-romana. O Império Romano dominava o mundo daquela época, incluindo a região da Palestina o antigo reino de Israel onde estava Jerusalém. Muitos judeus haviam deixado a Palestina e viviam em outras regiões do império (que incluía a Europa e o norte da África), e faziam parte da chamada diáspora (ou dispersão). Os cristãos primitivos entenderam a vinda de Cristo como sendo o cumprimento da Escrituras do Antigo Testamento. Os primeiros cristãos eram Judeus que creram no evangelho, e eram oriundos de todas as camadas religiosas e sociais. Os judeus eram um grupo relativamente privilegiado no império, porque eram permitidos de praticarem sua religião monoteísta, e não eram forçados a adorarem os deuses imperiais. O que era exigido era que sua religião não interferisse em sua submissão completa ao império. Outros grupos não tinham o mesmo privilégio. Quando judeus começaram a se converter ao cristianismo, entretanto, esse privilégio não se aplicava mais a eles. Os judeus não-convertidos também os perseguiam severamente. Os cristãos foram perseguidos (em diferentes níveis em diferentes épocas) e muitas vezes mortos pelo império durante 300 anos porque se recusavam a participar no culto imperial, e não estavam mais sob a proteção concedida à religião tradicional judaica. Enquanto os judeus da diáspora estavam em geral contentes com sua vida no Império Romano, os judeus da Palestina estavam insatisfeitos com o jugo imperial, e as tensões aumentavam a cada década. Quando os judeus daquela área se revoltaram, o Império Romano destruiu Jerusalém no ano 70 d.C. O templo foi completamente destruído, e os judeus foram expulsos de Jerusalém. As perseguições da Igreja por parte dos judeus não-convertidos (a maioria) e do império foi um fator que acabou colaborando para a difusão do evangelho, porque os cristãos foram dispersos por todas as áreas do império, levando a mensagem de Cristo com eles. Instituições e Práticas EclesiásticasDe acordo com as instruções do apóstolo Paulo, presbíteros foram constituídos para liderar a Igreja, sendo assistidos pelos diáconos (cf. Tt. 1:5; At. 14:23; 20:17, 28; etc; note que os termos presbítero, bispo, e pastor são usados nas Escrituras para designar o mesmo ofício). Cada igreja tinha um grupo de presbíteros e diáconos, o que era uma prática comum nas sinagogas, às quais os primeiros cristãos, sendo judeus, estavam acostumados. A maneira da qual cada igreja se relacionava com outras, no que diz respeito ao governo eclesiástico após a morte dos apóstolos, não é clara. Historicamente, têm havido três pontos de vista: 1. Alguns argumentam que cada igreja era inteiramente independente. Essa é a posição dos Congregacionalistas. 2. Outros argumentam que presbíteros regionais se reuniam. Essa é a posição dos Presbíteros. 3. Outros ainda argumentam que um bispo regional tinha jurisdição sobre os presbíteros. Essa é a posição Episcopal. Ainda que a evidência histórica seja escassa para que possa determinar qual a prática mais comum na igreja primitiva, duas coisas são certas: em primeiro lugar, a Bíblia usa os termos gregos traduzidos presbítero, bispo, e pastor para designar o mesmo ofício (veja acima). Em segundo lugar, a evidência histórica é que igrejas começaram a fazer uma distinção entre bispo e presbíteros somente a partir do final do primeiro século, e já no ano 150 d.C., a prática de bispos tendo jurisdição regional sobre presbíteros era universal. Esses bispos, no entanto, não tinham a mesma função que a maioria dos bispos da igreja Católica Romana e Anglicana têm hoje em dia. Hoje, eles têm um papel voltado principalmente à administração e ao governo. Naquela época, eles tinham a responsabilidade de ensinarem a Bíblia e cuidarem pessoalmente de suas congregações, de maneira semelhante ao papel de um pastor hoje. Vários fatores contribuíram para que a autoridade fosse gradualmente centralizada nos bispos em distinção dos presbíteros (ou pastores). Um fator importante era a organização da sociedade daquela época, na qual todos os relacionamentos sociais presumiam que uma pessoa estivesse em autoridade sobre os outros. No governo, em casa, na sinagoga todos procuravam uma figura central que estivesse em controle de tudo. Outro fator crucial foi o aparecimento de hereges, que negavam ou distorciam um ou mais aspectos fundamentais da doutrina cristã. O Novo Testamento foi escrito e distribuído através do império de maneira gradual; no primeiro e segundo séculos as pessoas não tinham um livro chamado Bíblia Sagrada com todos os 39 livros do Antigo Testamento e os 27 livros do Novo Testamento em suas mãos. Muitas vezes os cristãos não tinham acesso aos escritos dos apóstolos com relação às doutrinas atacadas pelos hereges. A solução era encontrar aqueles que tinham acesso a esses documentos, ou que tivessem sido instruídos pessoalmente pelos apóstolos, para que pudessem refutar os ataques à doutrina cristã. Esses líderes e professores ganharam proeminência, e se tornaram bispos nos quais cristãos confiavam para o ensinamento e defesa da doutrina apostólica. Com relação às praticas da Igreja, e evidência histórica mostra que os cristãos se reuniam no primeiro dia da semana (Domingo) para o culto. No culto havia a leitura e pregação das Escrituras, os cânticos de louvor, e a eucaristia (ou comunhão, com vinho e pão, segundo a ordenança de Jesus cf. Mat. 26:26-29; Mc. 14:22-24; Lc. 22:19-21; 1 Co. 11:23-34). Umas das descrições mais antigas do culto cristão vem do apologista Justino Mártir, que escreveu por volta do ano 150 d.C.: Após as orações, nós nos saudamos com o ósculo santo. À pessoa presidindo [o culto] são então trazidos pão e um copo com vinho misturado com água, e, tomando-os, ele dá louvor e glória ao Pai do universo, no nome do Filho e do Espírito Santo, e graças (...) e quando ele conclui as orações e ações de graças, todos presentes concordam dizendo amém (...) Aqueles chamados diáconos distribuem então aos presentes o pão e o vinho pelos quais ações de graças foram dadas, e aos que estão ausentes eles levam porções. Esse alimento é chamado entre nós eucaristia, da qual ninguém pode participar senão os que crêem que o que ensinamos é verdade, e os que tenham sido [batizados] e vivam como Cristo ordenou. Não recebemos o pão e o vinho como alimentos comuns (...) A exortação mútua é feita continuamente. Os que entre nós são abastados socorrem os pobres. No dia chamado Domingo, todos (...) se reúnem, e os escritos dos apóstolos e dos profetas são lidos, e [a pessoa presidindo] então ensina e exorta (...) Então todos se levantam e oram, e, como dito acima, pão e vinho são trazidos. 1 Os ApologistasA missão dos apologistas cristãos do segundo século, principalmente através de seus escritos, era dupla: por um lado, mostrar como as religiões e filosofias pagãs eram inconsistentes, auto-contraditórias, absurdas, e imorais. Por outro lado, defender o cristianismo de ataques externos, ou seja, de acusações distorcidas e injustas feitas por todos os diferentes setores da sociedade. O mais importante dos apologistas foi Justino Mártir (c. 100-165 d.C.). Tendo sido um filósofo, Justino usou a filosofia, após sua conversão, para defender o cristianismo. GnosticismoO trabalho dos apologistas e teólogos que defendiam a fé cristã contra heresias e distorções se fez necessário ainda mais como resultado da expansão do gnosticismo. A palavra grega gnosis significa conhecimento, e daí vem o nome gnosticismo; é uma referência a seitas e grupos que ensinavam diversas formas de heresia, baseadas sempre no conceito de que havia um grupo seleto de pessoas que tinham obtido conhecimentos secretos sobre as verdades universais, e somente eles podiam alcançar a salvação. Os grupos gnósticos eram numerosos e diversos, tanto quanto suas heresias, mas a maioria ensinava que o mundo material é intrinsecamente mau, e por isso praticavam todo tipo de asceticismo. Eles geralmente criam na reencarnação e procuravam escapar de tal ciclo. O mais famoso herege gnóstico foi Marcion (-160 d.C.). Ele foi excomungado em 144 d.C. por disseminar falsa doutrina e iniciar sua própria seita. Marcion cria que o deus descrito no Antigo Testamento era um deus criado, subdesenvolvido e severo; o Deus do Novo Testamento era o Deus supremo, o Pai carinhoso, e não o mesmo deus do Antigo Testamento. Como resultado, Marcion rejeitou o Antigo Testamento pois não acreditava ser a palavra de Deus. Isso, porém, não lhe foi suficiente; dos documentos do Novo Testamento, ele só aceitava o evangelho de Lucas e as epístolas de Paulo, (e mesmo assim só algumas delas, ou seja, as que não considerava como tendo sido corrompidas). Marcion criou seu próprio cânon, que incluía apenas o evangelho de Lucas e 10 epístolas de Paulo. Seu erro acabou sendo o motivo principal para que a Igreja primitiva definisse mais precisamente quais eram as Escrituras que tinham sido inspiradas por Deus. Tais heresias também acabaram acarretando uma maior ênfase no papel do bispo local como sendo o guardião e defensor da doutrina ortodoxa da Igreja cristã, já que eles eram líderes que tinham acesso mais direto às doutrinas apostólicas. Os cristãos não podiam simplesmente abrir suas bíblias e refutar as heresias como nós podemos hoje, já que muitos não a tinham de forma completa. Vale lembrar que a imprensa só seria inventada mil e quatrocentos anos depois. Irineu (130-200)Irineu foi um dos mais importantes Pais da Igreja, tendo sido bispo e executado como mártir. Ele foi um dos primeiros a sistematizar as Escrituras e desenvolver um sistema teológico bíblico e coerente. Tertuliano (c. 160-220 d.C.)Tertuliano foi um dos mais efetivos teólogos de seu tempo. Sua obra mais importante foi apologética (Apologia), e seu estilo literário era brilhante. Tertuliano foi o primeiro a usar a palavra latim Trinitas, traduzida Trindade, para se referir à natureza e essência do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Tertuliano, porém, nos últimos anos de sua vida, deixou a Igreja e se juntou ao Montanismo, um movimento ascético, excêntrico e herético no qual seus líderes alegavam receber revelações diretas do Espírito Santo. Eles enfatizavam experiências carismáticas e profecias, incluindo profecias sobre a volta de Cristo nos seus dias que nunca se cumpriram. CânonO cânon das Escrituras começou a se cristalizar por volta do ano 100 d.C. Isso não quer dizer que a Igreja decidiu naquela época o que ela consideraria como sendo inspirado. A palavra de Deus sempre foi a palavra de Deus, e o papel da Igreja foi somente reconhecer os documentos que tinham sido dados por Deus através dos apóstolos como sendo inspirados e autoritários. Quando, por exemplo, as epístolas de Paulo eram distribuídas e lidas, mesmo durante sua vida, tanto Paulo como os seus leitores reconheciam que aqueles escritos eram a Palavra de Deus (e.g., 2 Pe. 3:2; 16). Não foi a Igreja que determinou, de acordo com a sua preferência, quais documentos deveriam ou não ser considerados como tendo autoridade divina. Ao contrário, a Igreja simplesmente reconheceu por critérios objetivos (e.g., um documento ter sido escrito por um apóstolo para a instrução da Igreja) quais escritos tinham sido dados por Deus como a palavra de sua Nova Aliança. Já no ano 382 d.C. a Igreja aprovou oficialmente uma lista composta por Atanásio em 367 d.C. como contendo o cânon das Escrituras. Isso não refletia uma nova decisão, mas o reconhecimento oficial do que já tinha sido recebido e crido pela Igreja como um todo por mais de dois séculos. Esse cânon é o mesmo usado por todas as igrejas protestantes de hoje. HeresiasO reconhecimento do Cânon das Escrituras não só consolidou um consenso do que era o ensinamento oficial de Cristo e dos apóstolos com relação à Deus, à salvação, e à pratica cristã (ou seja, como os cristãos deveriam viver suas vidas para a glória de Deus), mas também permitiu que todo o tipo de heresia fosse refutada com a Palavra de Deus. Grupos e ensinamentos heréticos existiram desde os primeiros anos da Igreja, até mesmo durante a vida dos apóstolos (veja, por exemplo, o apóstolo Paulo condenando, na epístola aos Gálatas, a heresia daqueles que insistiam que uma pessoa só poderia ser salva se, além de crer em Jesus, também obedecesse à Lei cerimonial de Moisés). Com o passar das décadas, muitas heresias surgiram, o que forçou a Igreja a buscar nas Escrituras o entendimento bíblico sobre vários assuntos, o que impulsionou o desenvolvimento teológico. MonarquianismoO termo Monarquianismo foi usado primeiramente por Tertuliano com referência àqueles que de uma maneira ou outra procuravam enfatizar que Deus era somente Um, soberano monarca, e que a doutrina da Trindade era errônea. Havia dois tipos de Monarquianismo: Os monarquianistas dinâmicos (do grego dynamis significando força, ou poder, em referência ao poder de Deus que veio sobre o homem Jesus) negavam a divindade de Jesus. Segundo seus ensinamentos, Jesus era apenas um mero homem que foi adotado de uma maneira especial por Deus. Essa heresia, assim, também é chamada adocionismo, e foi condenada no sínodo de Antioquia em 268 d.C. Os monarquianistas modalistas, por outro lado, ensinavam que Jesus era Deus, mas que ele era a única Pessoa da Trindade. Segundo eles, a Trindade se manifestava de vários modos sucessivos. Eles identificavam Jesus como sendo a mesma pessoa que o Pai, em uma manifestação diferente. Por isso, essa heresia também foi chamada no Ocidente de Patripassianismo, (do latim Pater, Pai e passus, sofrer), pois resultava no ensinamento que o Pai sofreu na cruz, já que o Pai e o Filho eram a mesma pessoa. Assim, Pai, Filho e Espírito Santo não são as três Pessoas da Trindade, mas três manifestações de uma única pessoa, Deus. No Oriente essa heresia era chamada de Sabelianismo, porque foi divulgada por Sabélio, excomungado por sua heresia no ano 220 d.C. Essa doutrina foi combatida por Tertuliano, e foi nesse contexto que ele pela primeira vez usa o termo Trinitas (Trindade; veja acima), argumentando que Deus é uma Trindade na qual existe uma só essência e ao mesmo tempo três Pessoas. O monarquianismo modalista (também chamado simplesmente de modalismo), ao contrário do monarquianismo dinâmico, era muito popular. Muitas pessoas aceitavam essa heresia principalmente pelo fato de ela preservar a divindade de Jesus. Ao contrário do que é dito hoje em dia por liberais e hereges, a crença de que Jesus era Deus não foi uma invenção da Igreja do 4º século. Na verdade, os Cristãos criam, desde a ressurreição de Cristo, que ele era ao mesmo tempo verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus, ainda que não pudessem formular a doutrina da Trindade claramente. Assim, era mais fácil e comum cair no erro do modalismo do que no erro dos adocionistas, que negavam que Jesus era Deus. Essas duas heresias antigas ainda estão presentes no dias de hoje. As Testemunhas de Jeová ensinam uma doutrina que mistura elementos de monarquianismo dinâmico e Arianismo (veja abaixo), onde Jesus é apenas um homem, e o Verbo de Deus é uma criatura (segundo as TJ, o arcanjo Miguel) que habita o corpo do homem Jesus. A idéia de que Jesus era apenas um homem especial sobre o qual o poder de Deus veio de uma maneira especial é também encontrada em muitos outros grupos e religiões, incluindo o Islã. Os Pentecostais Unicistas, por outro lado, ensinam a mesma heresia do modalismo. Pai, Filho, e Espírito Santo são apenas nomes diferentes de manifestações diferentes da mesma Pessoa. Essa heresia também é encontrada em outros grupos modernos, incluindo o Tabernáculo da Fé (seguidores de William Branham). Perseguição da IgrejaAté a metade do terceiro século, a perseguição da Igreja era mais localizada. Quando Décio se tornou imperador na metade daquele século, houve uma perseguição mais generalizada, se espalhando por todo o império. A partir de então, qualquer pessoa podia ir às autoridades e denunciar uma outra pessoa simplesmente pelo crime de ser cristão. Os cristãos eram freqüentemente torturados e, se não negassem a Cristo, eram mortos. Ainda que isso tenha ocorrido desde o primeiro século, em 250 d.C. o imperador Décio estabeleceu uma perseguição brutal e universal (i.e, em todo o Império Romano, que se estendia desde a península Ibérica até o Oriente Médio, incluindo o norte da África), na qual todos os cidadãos eram obrigados, por lei, a obterem um certificado oficial de que não eram cristãos. Esse certificado só podia ser obtido mediante adoração pública de deuses pagãos. Tais perseguições continuaram por mais 60 anos, até a era do imperador Constantino. O imperador Diocleciano (284-305), por exemplo, durante a última perseguição generalizada do império, decretou que todos os cristãos deveriam entregar suas Escrituras às autoridades, ou sofrer tortura e execução. ConstantinoEm 312 d.C., com a ascensão de Constantino ao poder, o Cristianismo que tinha sido perseguido por quase 300 anos se torna, como que da noite para o dia, uma religião não somente legal, mas também favorecida pelo imperador. Mais tarde, ela se tornaria a religião oficial do império, e pagãos seriam perseguidos e torturados. Constantino se tornou imperador após derrotar seu opositor Maxentius na luta pelo poder. Houve uma batalha na qual Constantino alegou ter tido uma visão dos céus que lhe mostrava o sinal da cruz e dizia Vença por esse sinal. Como imperador, independentemente da questão da veracidade de sua conversão, Constantino percebeu que era melhor para a estabilidade d o império que houvesse apenas uma religião, unificando povos e líderes. O cristianismo passou progressivamente a ser a religião oficial do império. Com a conversão de Constantino, a Igreja passou de perseguida a tolerada, e mais tarde de tolerada a oficial. Por isso, gradualmente, os pagãos passaram a ser perseguidos, e muitas pessoas passaram a se denominarem cristãos simplesmente porque isso era mais seguro e proveitoso. Muitos pagãos, enquanto se diziam cristãos, mantinham suas práticas pagãs (por exemplo, o culto aos ancestrais, ou a adoração de múltiplos deuses), mas agora com disfarces e aparências cristãs. O nominalismo e o mero formalismo que tinham sido impossíveis na época das perseguições se tornaram agora comuns, ainda que não universais. 1 Justino Mártir, Primeira Apologia, caps. LXV - LXVII Página 1 / Página 2 |
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