![]() |
||||||||||||
História da Igreja
|
||||||||||||
|
|
|
|||||||||||
Parte I Igreja Antiga (cont.)ArianismoArius era um bispo em Alexandria que negou que Cristo fosse Deus (i.e., a segunda pessoa da Trindade). Arius ensinava que Jesus era divino, mas de uma divindade subordinada ao Pai. Segundo Arius, Jesus era um homem que não tinha uma alma humana, já que em seu caso a alma tinha sido substituída pelo Logos, ou seja o Verbo de Deus. Esse Logos, ou Verbo, era um ser espiritual criado por Deus para habitar no homem Jesus. Assim sendo, em essência Arius negou tanto a humanidade de Jesus (já que ele não tinha uma alma humana) quanto a sua verdadeira deidade (sendo que o Logos era uma criatura espiritual). Arius era um pregador dinâmico e famoso, tendo uma personalidade atraente. Ele inventou um slogan sobre Cristo houve um tempo quando ele não existia que se tornou famoso. Seus ensinamentos logo causaram consternação no império. Alguns bispos o condenavam como heterodoxo e herege. Outros o defendiam. Houve conflitos nas ruas, especialmente em Alexandria, e muitos morreram defendendo suas crenças. O imperador Constantino, ao tomar conhecimento dos grandes distúrbios, interveio rapidamente para assegurar a paz e estabilidade no império. Ele convocou assim um Concílio, ou Sínodo, no qual bispos de todo o império deveriam comparecer para avaliar os ensinamentos de Arius, e formular o entendimento Católico (i.e., universal) sobre as doutrinas bíblicas sobre o assunto. Concílio de Nicéia (325) O Primeiro Concílio EcumênicoO Concílio de Nicéia foi o primeiro concílio considerado ecumênico. A ele compareceram entre 250 a 300 bispos. O objetivo principal era produzir um documento que definisse a crença ortodoxa (ou seja, o que a Igreja entendia ser o ensinamento bíblico) sobre Deus e Jesus. Para isso, era preciso que se usasse linguagem teológica e técnica e não somente termos bíblicos para as definições, sendo que os hereges usavam termos bíblicos, fora de contexto, para defenderem suas próprias teses. Desse modo, o concílio decidiu usar a palavra grega homoousios significando da mesma essência para definir a relação entre a essência de Jesus Cristo e Deus. O imperador usou de sua autoridade para que todos os bispos assinassem o documento final. Arius foi excomungado como herege. Apesar disso, alguns discordavam dessa formulação. Os seguidores de Arius usavam o termo heteroousios significando que Jesus era de uma essência diferente e outros, procurando um meio termo, usavam o termo homoiousias significando de essência similar. Nos anos que se seguiram, ainda que a Igreja tivesse um pronunciamento oficial sobre a questão, esses dois partidos heterodoxos continuaram a causar distúrbios e negar que Jesus era Deus eterno, a segunda Pessoa da Trindade. O defensor mais hábil e famoso da doutrina ortodoxa sobre esse assunto foi Atanásio. Atanásio e o Credo de NicéiaAtanásio se tornou bispo de Alexandria em 328 d.C. Em 335, pressões políticas tinham convencido o imperador Constantino a readmitir Arius para a comunhão da Igreja. Entretanto, de acordo com as resoluções sobre governo eclesiástico definidas em Nicéia, somente o bispo de Alexandria poderia readmitir uma pessoa excomungada por sua jurisdição. Essa pessoa, no caso, era Atanásio, e ele se recusou a readmitir Arius. Como resultado, Constantino depôs Atanásio e o baniu de Alexandria. Constantino morreu dois anos depois, em 337. Atanásio, o grande defensor da fé ortodoxa, passou os próximos anos de sua vida sendo repetidamente banido e readmitido por diferentes imperadores, de acordo com os ventos políticos de cada momento. Ele passou muitos anos escondido em desertos e cavernas do Egito. Atanásio produziu muitos documentos e tratados teológicos, mesmo sendo foragido, e defendeu a ortodoxia até o dia de sua morte em 373. O novo bispo convocou um sínodo para a reversão da excomunhão e reinstalação de Arius como bispo. Na noite anterior à cerimônia, Arius morreu de causas naturais, o que muitos cristãos viram como sendo o julgamento de Deus sobre o herege. Após vários imperadores terem sucedido Constantino, em 379 Teodósio (o grande), defensor da ortodoxia Nicena, tinha se tornado imperador e convocou outro sínodo na capital do império, em Constantinopla. O sínodo de Constantinopla em 381 expandiu e revisou o Credo de 325 e ratificou a doutrina Nicena, incluindo linguagem ainda mais precisa defendendo a ortodoxia (veja abaixo). O documento produzido é o Credo Niceno que usamos hoje; tecnicamente, o credo é chamado Niceno-Constantinopolitano. Controvérsias CristológicasA controvérsia Trinitária impulsionou os Concílios de Nicéia e Constantinopla, que definiram o entendimento da Igreja com relação ao ensinamento bíblico sobre quem era Jesus e a Trindade. As controvérsias Cristológicas posteriores referiram-se a questões sobre o relacionamento entre a divindade e a humanidade de Jesus. O quadro abaixo mostra apenas três das principais heresias cristológicas. O círculo representa a Pessoa de Cristo, enquanto que a letra H representa sua natureza humana e a letra D representa sua natureza divina.
Concílio de Constantinopla (381) O Segundo Concílio EcumênicoO Concilio de Constantinopla reafirmou e até mesmo expandiu, de maneira mais precisa e técnica, a idéia formulada pelo Concilio de Nicéia - de que Jesus era Deus verdadeiro e homem verdadeiro, tendo a mesma essência do Pai, ainda que sendo uma Pessoa distinta da Trindade. Uma das controvérsias cristológicas teve início quando um bispo sírio chamado Apolinário começou a pregar que o Verbo de Deus substituiu parte da alma humana (a mente) de Jesus (um ensinamento similar ao de Arius). Assim, Jesus não era nem completamente humano, nem completamente divino. Os ensinamentos de Apolinário foram condenados como heresia em Alexandria em 362 e também no Concílio de Constantinopla em 381 d.C. Concílio de Éfeso (431) O Terceiro Concílio EcumênicoOutra controvérsia começou quando Nestório, um dos mais importantes líderes eclesiásticos do 5º século, foi acusado de ensinar que as duas naturezas de Jesus (humana e divina) eram tão separadas a ponto de ele ser duas pessoas. Nestório se opunha ao titulo Theotokos dado a Maria. A palavra Grega significa aquela que carregou a Deus, no sentido de ser a mãe de Deus. Nestório argumentou que Maria deu a luz ao filho de Deus, e não a Deus; ela deu a luz à natureza humana de Jesus, e não a sua natureza divina, que é eterna. Seus opositores, por outro lado, argumentaram que, ainda que ela não tivesse originado a natureza eterna de Jesus, não se pode separar a natureza humana de Cristo da sua natureza divina. Tudo que pode ser dito de cada natureza de Jesus, pode ser dito da pessoa Jesus. Ele é uma só Pessoa, e é ao mesmo tempo homem e Deus. Maria, portanto, deu luz a Deus porque ela deu luz a Jesus. Ela não deu a luz a uma natureza, mas a uma Pessoa Jesus que é Deus; portanto, ela é mãe de Jesus, e em consequência, mãe de Deus. O título dado a Maria não significava ensinar que, de alguma maneira misteriosa, Maria dera à luz a Deus na sua essência eterna. O termo fazia parte de um argumento contra a cristologia duvidosa dos nestorianos, e intenção da mensagem era mostrar que Maria não deu à luz a um mero homem. Não havia intenção de ensinar que Maria era a origem da natureza divina de Cristo, o que seria impossível visto que a natureza divina não tem origem, porque é eterna; além do mais, Maria não tem atributos divinos. Cirilo, bispo em Alexandria, foi o opositor mais ferrenho de Nestório. Um concílio foi convocado na cidade de Éfeso em 431 e o ensinamento atribuído a Nestório foi condenado. O concílio oficialmente declarou que Jesus tem duas naturezas (humana e divina), mas é uma só Pessoa. Concílio da Calcedônia (451) O Quarto Concílio EcumênicoOutra controvérsia Cristológica importante se desencadeou quando um monge em Constantinopla chamado Eutiques começou a ensinar uma heresia no extremo oposto do nestorianismo. Segundo Eutiques, Jesus não só era uma só Pessoa, mas ele também tinha uma só natureza, e não duas (humana e divina). Essa heresia foi chamada de monofisitismo (mono = um; physis = natureza). A única natureza de Jesus, segundo os monofisitas, era a divina, que absorveu a natureza humana, divinizando-a. O eutiquianismo foi condenado como heresia no Concílio Ecumênico de Calcedônia em 451 d.C. A fórmula adotada no concílio apresentou quatro qualificações que se tornaram a definição clássica sobre a relação entre as duas naturezas; clássicas porque as quatro qualificações são precisas e, juntas, refutam qualquer heresia possível sobre as duas naturezas. A fórmula diz que existe um único Cristo, que possui duas naturezas, não confusas e não transformadas, não divididas, não separadas, pois a união das naturezas não suprimiu as diferenças; antes, cada uma das naturezas conservou as suas propriedades e se uniu com a outra numa única pessoa e numa única hipóstase (ou essência). Foi afirmado que Jesus é verdadeiro homem e verdadeiro Deus, sendo consubstancial com os homens em sua natureza humana (exceto pela ausência do pecado) e consubstancial com Deus em sua natureza divina. Após o concílio, muitos continuaram a ensinar o monofisitismo, especialmente no Oriente. Hoje, muitos monofisitas se encontram na igreja Copta. Assim terminou a fase principal das disputas cristológicas. Em Cristo há duas naturezas e uma Pessoa. Ele era um verdadeiro homem, sujeito à dor e à morte. Ele é também a segunda Pessoa da Trindade, possuindo a natureza divina desde toda a eternidade, e assumindo a natureza humana no seio de Maria. Se Jesus fosse só homem, não poderia pagar pelos pecados daqueles que nele crêem. Por outro lado, se não tivesse adicionado a natureza humana à sua natureza eterna e divina, ele não poderia ter vivido uma vida perfeita como homem (perfeição esta que é imputada a todos que nele crêem) nem morrido na cruz por nossos pecados. Se Jesus tivesse suas naturezas misturadas, sua verdadeira natureza seria de um terceiro tipo, nem humana, nem divina. Agostinho (354-430)Agostinho nasceu em Tagasta (Argélia), no norte da África, em 354, filho de Patrício e Mônica (Santa Mônica). Sua mãe, uma cristã devota, orou por sua salvação durante 32 anos. Agostinho é a figura mais importante e influente da história da Igreja Ocidental, especialmente durante a Idade Média e a posterior Reforma Protestante. Durante mais de mil anos após sua morte, todos os teólogos da Igreja Ocidental procuravam se dizer agostinianos, ainda que muitos não seguissem fielmente Agostinho em seus pensamentos e doutrinas. Os grandes reformadores do século 16 (especialmente Lutero e Calvino) resgataram a doutrina agostiniana com relação à graça de Deus. A Reforma Protestante teve uma base importante em muitos dos ensinamentos de Agostinho. Aos 19 anos, Agostinho começou a estudar literatura e retórica. Nessa época ele tomou a si uma concubina (prática comum na época) com a qual teve um filho chamado Adeodato. Agostinho havia rejeitado a religião de sua mãe, porque a considerava simplória. Ele amava a beleza literária de escritores como Cícero, e achava o texto bíblico insípido. Agostinho nessa época se juntou a um grupo religioso herético chamado maniqueísmo, que se dizia superior ao cristianismo. O grupo ensinava que o universo é uma realidade dualística, e que o mal havia invadido e dominado o bem. O maniqueísmo era basicamente um tipo de gnosticismo, filosofia dualista segundo a qual a salvação depende do conhecimento (gnose) da verdade espiritual. Como todas as formas de gnosticismo, ensinava que a vida terrena e a natureza material são fundamentalmente más. Agostinho foi um maniqueísta por quase dez anos, tempo durante o qual ele trabalhou como professor de literatura e retórica em Tagasta. O sistema intelectual do grupo, entretanto, era inadequado para responder às perguntas existenciais da mente brilhante de Agostinho. Em 384, aos 30 anos, Agostinho conseguiu um emprego como professor em Milão, cidade na qual o renomado Ambrósio era bispo. Ambrósio era um pregador requintado, e havia tido instrução clássica. Agostinho progressivamente percebeu que as doutrinas pregadas por Ambrósio eram não só profundas, mas também suficientes para responder às perguntas para as quais ele não tinha obtido resposta por mais de dez anos. A partir daí Agostinho começou sua conversão intelectual (como ele a descreveu) ao cristianismo. Em 386, aos 32 anos, amigos de Agostinho que tinham viajado pelo império o visitaram, e contaram-lhe histórias de pessoas que haviam se convertido e abandonado tudo pelo cristianismo. Nessa época, sua mãe Mônica havia se mudado da África e estava com ele em Milão, freqüentando a igreja de Ambrósio, e fiel em suas orações pelo seu filho. Agostinho ficou particularmente impressionado com a história de Santo Antônio, que havia se tornado um monge ascético, vivendo nos desertos e cavernas do Egito, entregando-se a Deus na solidão. Tais histórias levaram Agostinho à angústia com relação ao seu próprio estado espiritual. Ele havia aceitado o Cristianismo como um sistema intelectual viável, mas ainda não tinha conseguido tomar a decisão de abandonar sua vida mundana para se entregar a Deus. Nessa hora, em sua aflição, Agostinho saiu da sala para poder chorar sozinho no quintal da casa. Ao sentar sob uma figueira no jardim, ele ouviu crianças ao longe brincando e dizendo (em latim): pegue e leia! Pegue e leia! Agostinho sentiu que isso era um chamado de Deus para que ele lesse a bíblia, e ele então correu para dentro de casa e abriu as Escrituras. O primeiro versículo que ele leu foi Romanos 13:13-14, que diz, Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e nada disponhais para a carne no tocante às suas concupiscências. Nesse momento Agostinho sentiu que Deus lhe havia concedido a paz interna e o poder de abandonar o mundo para viver para Ele. Essa foi a conversão que Agostinho chamou de sua conversão moral, aos 32 anos. Agostinho foi batizado por Ambrósio no ano seguinte, em 387, e resolveu voltar para a África com sua mãe. Na viagem de volta, Mônica morreu em Óstia, antes que eles pudessem cruzar o Mediterrâneo. Ela tinha acreditado por toda a vida que Deus salvaria seu filho amado, e assim pôde morrer em paz. Adeodato, filho de Agostinho com a concubina da qual ele já havia se separado, nessa época já adolescente, foi batizado com o pai e morreu pouco tempo depois. Agostinho continuou a viagem e voltou para Tagasta, onde passou a ensinar a bíblia para leigos e até clérigos da região. Em 391, durante uma viagem à cidade de Hipona, Agostinho foi forçadamente consagrado presbítero da congregação local (prática não incomum na época). Quatro anos mais tarde, em 395, ele foi lá consagrado bispo de Hipona. Agostinho teve dois inimigos principais durante sua vida: os donatistas e Pelágio. DonatismoOs donatistas eram um grupo Africano que tinha se separado da igreja Católica por acreditarem que ela tinha se corrompido, ao permitir que bispos relapsos consagrassem outros bispos. O começo da cisma foi em 311, quando, com a morte do bispo Mensúrio de Cartago, Ceciliano foi eleito em seu lugar. Muitos argumentavam que os bispos que consagraram Ceciliano tinham, durante a perseguição de Diocleciano (284-305) se tornado traidores, isto é, tinham entregue os livros sagrados aos perseguidores. O imperador pagão Diocleciano havia decretado que todos os cristãos eram por lei obrigados a entregarem suas cópias das Escrituras às autoridades, ou serem torturados e executados. Muitos conseguiram esconder suas cópias, mas outros as entregaram para salvar suas vidas e, em muitos casos, suas igrejas. Em tais condições, diziam os adversários de Ceciliano, os bispos que tinham obedecido às autoridades haviam se corrompido e se removido da Igreja de Cristo, e, portanto, não podiam ter validamente consagrado o novo bispo de Cartago. Setenta bispos da Numídia (Norte da África) se reuniram então em Cartago e elegeram outro bispo, Majorino, ao qual sucedeu em 315 Donato o Grande (daí o nome donatistas). Estava aberto o cisma donatista. Eles se diziam a única igreja verdadeira, pura e imaculada, e re-batizavam qualquer pessoa que tivesse sido batizada pelos católicos. De um modo geral, os donatistas não tinham uma teologia diferente dos católicos (o termo igreja católica nessa época ainda não se referia à igreja romana, mas à igreja cristã espalhada pelo mundo). Sua liturgia era a mesma, mas eles não reconheciam o batismo católico como válido. Os donatistas eram um grupo situado somente na África, o que significava que enquanto o resto do cristianismo não lhes dava muita atenção ou credibilidade, eles eram uma realidade presente na vida de Agostinho, que se tornou bispo quando o cisma donatista já dividia a África por mais de 80 anos. A igreja católica argumentava que a visão da igreja como sendo perfeitamente pura na Terra era errônea. Assim como a arca de Noé, que continha animais limpos e imundos, e como o campo da parábola que Jesus propôs, contendo joio e trigo, a Igreja também contém cristãos e hipócritas, que serão separados somente por Jesus e somente no juízo final. Os católicos também argumentavam que os donatistas eram um grupo local, e por isso não podiam se considerar a igreja verdadeiramente católica. Por fim, os católicos argumentavam que os sacramentos tinham sido instituídos por Deus, e não dependiam da pureza dos ministradores para que fossem válidos do contrário, nenhum batismo seria válido pois nenhum ministro era inteiramente perfeito. O batismo era válido se fosse administrado por um ministro segundo o mandamento de Cristo, i.e., em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Nada mais era requerido para a validade do batismo. Por isso, os católicos reconheciam o batismo dos donatistas, ainda que eles estivessem em erro e cisma, enquanto que os donatistas não reconheciam o batismo dos católicos. Agostinho seguiu a linha dos católicos, e atacou duramente os donatistas. Ele, nessa época, fez uma distinção entre o que ele chamou de Igreja visível e Igreja invisível distinção essa que foi extremamente importante para a Reforma Protestante. Agostinho argumentou que Cristo tinha claramente ensinado que a Igreja visível, na Terra, continha verdadeiros cristãos bem como hipócritas (e.g., como na parábola do trigo e do joio, já mencionada acima). Muitos dos que se dizem cristãos não o são, mas só Deus pode conhecer o coração das pessoas. Por isso, todos os que recebem batismo e se dizem crentes em Jesus devem ser considerados cristãos, ainda que muitos possam não o ser. O julgamento final e perfeito, porém, cabe somente a Deus. A Igreja invisível, por outro lado, é o Corpo de Cristo composto somente por aqueles que são realmente salvos, e ela é conhecida perfeitamente somente por Deus. Somente ela é perfeita e sem mácula, porque é objeto da graça do Espírito Santo. Qualquer tentativa humana de tornar a Igreja visível idêntica à Igreja invisível, ou seja, decidir quem é ou não salvo dentre aqueles que se dizem crentes em Cristo e professam o credo ortodoxo, leva ao legalismo, à cisma, e ao erro. Os Reformadores do século 16 usaram esses conceitos agostinianos para explicar por que, por um lado, havia pessoas salvas que ainda faziam parte da Igreja Católica Romana a qual, ao seu ver, havia se tornado uma igreja falsa por ter corrompido o evangelho da salvação somente pela fé. Por outro lado, também podiam explicar por que havia pecadores e hipócritas dentre aqueles que haviam deixado a Igreja Romana. Os Reformadores também usaram esses conceitos contra os anabatistas, que argumentavam que somente pessoas salvas podiam receber batismo ou seja, bebês não podiam ser batizados por que não podiam fazer profissão de fé, e sem profissão de fé não podiam ser salvos. Os Reformadores contra-argumentavam dizendo que o batismo era o sinal de entrada da pessoa na Igreja visível, não na Igreja invisível. Deus sempre lidou com o seu povo por meio da Aliança, tanto na Velha quanto na Nova e a aliança sempre inclui aqueles que professam fé e seus filhos, ainda que somente aqueles que têm fé são salvos. Assim como Deus comandou Abraão a circuncidar suas crianças como sinal da aliança ainda que só uma seria salva pela fé também ocorre na Nova Aliança, o batismo sendo seu sinal. Ou seja, batismo não conferia salvação por si só (como os Católicos Romanos argumentavam), nem poderia ser restrito aos que eram salvos por sua profissão de fé (como os anabatistas argumentavam), já que muitos que faziam tal profissão abandonavam a Igreja mais tarde (o que provava que nunca tinham sido salvos em primeiro lugar). Além disso, somente Deus conhecia o coração dos que faziam profissão de fé. Somente a fé verdadeira salva, diziam os Reformadores, não a profissão de fé ou o batismo. Por isso, o batismo poderia ser administrado aos filhos de cristãos, o que os incorporava à Igreja visível, e ao mesmo tempo apresentava a promessa visível de Deus de que a lavagem dos pecados representada pela águas lhes seria aplicada se eles tivessem, mais tarde, fé em Cristo. Os Reformadores também reconheciam que bebês poderiam, em alguns casos, serem salvos pela graça soberana de Deus antes mesmo de poderem crescer e exercitar fé em Cristo (como, por exemplo, ocorreu com João Batista, quando ele estremeceu de alegria ainda no ventre, quando Maria visitou Isabel). PelagianismoO outro inimigo de Agostinho foi Pelágio, e a controvérsia teológica entre os dois foi fundamental para o desenvolvimento do cristianismo, e especialmente para a Reforma Protestante. Pelágio era um monge britânico que vivia em Roma. Com a invasão dos visigodos em 410 (o que marcou a desintegração do Império Romano), Pelágio se refugiou na África. Ele era extremamente austero, disciplinado e moralista. Ainda quando estava em Roma, Pelágio teve conhecimento da reputação internacional de Agostinho, mas detestava seus ensinamentos. Uma oração famosa de Agostinho, encontrada no seu livro Confissões, pedia a Deus que nos concedesse o poder de querer e cumprir o que Ele comandava, e então comandasse o que quisesse. A oração expressava o pensamento de que somente pela graça que Deus nos dá podemos obedecê-lo, e não por nossos próprios esforços ou livre arbítrio. Isso irritava Pelágio profundamente, porque ele achava que isso levaria as pessoas ao relaxamento moral. Para Pelágio, a queda de Adão e Eva não tinha acarretado nem culpa, nem transmissão da natureza pecadora para seus descendentes. Ou seja, seres humanos nascem no mesmo estado de Adão e Eva antes da queda: sem pecado, sem culpa, e com total habilidade de serem perfeitos. Para Pelágio, nós pecamos somente como resultado de maus ensinamentos e maus hábitos, não como resultado de uma natureza pecaminosa que nos foi transmitida desde o nascimento. Por isso, qualquer pessoa tem não só a obrigação, mas também a capacidade natural de crer no evangelho e de obedecer perfeitamente os mandamentos de Deus. Segundo Pelágio, se não tivéssemos plena capacidade de obedecer aos mandamentos de Deus, ele não poderia nos condenar justamente quando falhássemos; culpa só pode ser atribuída àqueles que pecam enquanto tendo pleno poder de não pecar. Uma das características principais de Agostinho era sua consciência aguda e clara tanto do pecado do homem, quanto da soberania e graça de Deus. Por isso, ele combateu ferrenhamente os ensinamentos de Pelágio, argumentando que a queda de Adão e Eva nos afeta diretamente. Segundo Agostinho, o ensinamento da bíblia (e.g., Sl. 51, Eu nasci na iniqüidade, e em pecado me concebeu minha mãe), e principalmente de Paulo, é que antes da salvação, estamos espiritualmente mortos em nossos pecados, estando por natureza sob a ira de Deus (Ef. 2). Sem a graça salvadora de Deus, estamos todos no reino das trevas (Cl. 1:13; 1 Pe. 2:9; 2 Cor. 4:6; At. 26:18), cegos pelo Diabo (2 Cor. 4:4), sem poder de vir a Deus se não por Sua intervenção direta (João 6:44). A queda de Adão e Eva não somente nos coloca sob a culpa judicial de seu ato, sendo que eles são nossos pais e representantes (cf. Romanos 5), mas também nos transmite uma natureza pecadora. Como resultado, somente podemos exercitar fé em Cristo se Deus diretamente intervier e nos conceder um coração novo (2 Cor. 4, Jo. 6, Jer. 31). Agostinho não negava que tivéssemos livre arbítrio, mas ele o definia de uma maneira diferente de Pelágio. Para Pelágio, o verdadeiro livre arbítrio é a capacidade de pecar ou não pecar, ou seja, de escolher entres todas as possibilidades. Para Agostinho, Adão e Eva tinham esse tipo de livre arbítrio, mas nós não o temos mais após a queda. Desde então, temos livre arbítrio somente no sentido de que somos livres para seguir nossos próprios desejos e nossa própria natureza. Porém, a nossa natureza é pecaminosa, e os desejos por ela produzidos são pecaminosos. Somos então livres para pecar, mas não temos liberdade, pelo nosso próprio esforço, de não pecar, ou de buscar a Deus, da mesma maneira que não temos a liberdade de criar asas e voar. Pecamos livremente; buscamos a Deus e somos salvos somente pela intervenção direta de Deus nas nossas vidas individuais. Agostinho também enfatizou que a definição do verdadeiro livre arbítrio não pode ser, como pregava Pelágio, a habilidade de pecar ou não pecar, pois nesse caso, seríamos mais livres na Terra, quando podemos pecar, do que no céu, na presença de Deus, quando não mais teremos a habilidade de pecar e cair de novo. Além do mais, seríamos mais livres do que o próprio Deus, o qual, sendo perfeito, não tem a habilidade de pecar. Isso gera a pergunta: se a salvação depende de Deus, e não da vontade natural do homem, por que então alguns são salvos e outros não? Agostinho demonstrou que o apóstolo Paulo claramente respondeu essa pergunta em passagens como Efésios 1 e Romanos 8 e 9. Paulo nos diz que Deus escolheu os que são salvos em Cristo antes da fundação do mundo, e nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade (Ef. 1:4-5); somos predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade (Ef. 1:11). Assim, Deus, aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou, a esses também chamou; e aos que chamou, a esses também justificou; e aos que justificou, a esses também glorificou (Romanos 8:29-30). Desse modo, Agostinho cria que a salvação é inteiramente uma obra de Deus na vida daqueles que ele predestinou a salvação. Como resultado, Agostinho também ensinou que àqueles que Deus predestinou, ele salva, porque os planos de Deus nunca são frustrados o que significa que a sua graça é irresistível. Deus intervém irresistivelmente na vida de pecadores que ele predestinou a salvação, e quando isso ocorre, o pecador exercita fé em Cristo e é salvo. A graça de Deus é irresistível, não no sentido de que o pecador é trazido à salvação contra a sua vontade, mas no sentido de que Deus lhe dá a fé e a vontade de ser salvo, o que não existiria naturalmente. Somente a graça de Deus move a vontade do homem em direção a Ele. Como resultado dos argumentos de Agostinho, as doutrinas de Pelágio foram condenadas oficialmente no Concilio de Cartago em 418, e também mais tarde no terceiro Concilio Ecumênico de Éfeso em 431. Entretanto, a teologia que prevaleceu nos próximos mil anos foi um meio termo entre a teologia de Agostinho e a de Pelágio. Segundo essa teologia, o homem não tem condições de buscar a Deus sem uma intervenção divina, mas essa intervenção é apenas uma assistência que pode ser aceita ou rejeitada pelo homem. Deus provém uma certa assistência a todos os homens, principalmente àqueles que demonstram um amor inicial a Deus. Somente aqueles que no seu próprio esforço e livre arbítrio cooperam com a graça de Deus podem ser salvos, se se mantiverem fiéis nas suas obras. Essa doutrina é conhecida por muitos como semi-pelagianismo, e segundo ela, o homem diante de Deus não está nem morto nem são, mas doente. A vontade, apesar de enfraquecida, ainda tem o poder de buscar a Deus e deve aceitar a graça que Deus lhe proporciona. A salvação é o resultado de uma cooperação entre Deus e o homem. Essa doutrina da cooperação foi (e ainda é) a doutrina oficial da Igreja Católica Romana durante a Idade Média, ainda que alguns teólogos durante esse período fossem genuinamente agostinianos. Durante mil anos, todos os teólogos queriam se dizer agostinianos, tamanha a sua influência. O interessante é que Agostinho, no começo de sua carreira eclesiástica, tinha uma visão da soberania de Deus e do livre arbítrio mais parecida com a de Pelágio (ou semi-pelagiana). Somente mais tarde, após anos de reflexão teológica, é que Agostinho reconheceu que o livre arbítrio do homem é livre para pecar, não para escolher a Deus sem Sua intervenção direta. Seu desenvolvimento teológico também foi impulsionado pela necessidade de refutar Pelágio. Suas obras teológicas que datam dos seus anos mais maduros (como descrito acima), portanto, diferem em muitos aspectos de suas obras anteriores, quando se converteu. Por isso, vários teólogos da Idade Média que divergiam completamente em suas doutrinas podiam citar Agostinho como referência, e se dizerem agostinianos. Os Reformadores concordaram com o Agostinho maduro, teologicamente mais desenvolvido, e que chegou às suas conclusões após anos de reflexão e experiência como o bispo mais influente da história do Cristianismo. A teologia agostiniana da graça soberana de Deus e da incapacidade natural do homem foi a base da teologia da graça e salvação resgatada pelos Reformadores durante a Reforma Protestante no século 16. Página 1 / Página 2 |
||||||||||||
|
|
||||||||||||
|
|
||||||||||||
|
Copyright © 2006 Agência de Informações Religiosas |
||||||||||||