Movimento da Fé



Adaptado do artigo por Clete Hux

 

Fundador: O movimento não teve fundador; E. W. Kenyon (1860–1948) foi um dos primeiros expoentes da mistura de elementos do misticismo, da Nova Era, e do cristianismo que caracteriza o movimento.

Data de Fundação: Não há uma data de fundação para o movimento. Seu desenvolvimento foi gradual, e suas raízes filosóficas são diversas, se estendendo desde o gnosticismo do 2º século.

Publicações Oficiais: Não há publicações oficiais. Revistas, livros, panfletos e até escolas bíblicas são patrocinadas por aderentes como Kenneth Hagin, Jorge Tadeu, Benny Hinn e outros.

Organização Estrutural: Não há uma organização formal e centralizada. Os líderes do movimento têm suas próprias igrejas e ministérios.

Outros Nomes: “confissão positiva”, “evangelho da saúde e da prosperidade”.

História

E. W. Kenyon é reconhecido como um dos primeiros expoentes do Movimento da Fé. Era originalmente um metodista, mas se tornou mais ecumênico, associando-se com os batistas, chegando até a fundar igrejas batistas. Mais tarde, Kenyon se tornou pentecostal, e adotou elementos de seitas metafísicas, como a Ciência Cristã e a Associação Unidade de Cristianismo. As doutrinas do pensamento positivo e da confissão positiva, onde doenças são consideradas sintomas (negando sua realidade, como faz o Gnosticismo) não são encontradas em documentos cristãos antes do aparecimento do Novo Pensamento (movimento que começou no século 19 e que ensina a divindade do homem, suas possibilidades infinitas, a ilusão do pecado e das enfermidades, e a salvação através da descoberta da divindade interior). Essas doutrinas se originaram nessas seitas, e foram mais tarde adotadas por cristãos que buscavam desenvolver ministérios de cura. [1]

Ainda que não tenha sido seu fundador, Kenneth Hagin (1917–) é considerado o “vovô dos pregadores da fé”. [2] Numa pesquisa feita na revista americana pentecostal Charisma, Kenneth Hagin aparece como o terceiro pregador mais influente dos ministros, atrás apenas de Pat Robertson e Kenneth Copeland. [3]

Doutrina

Deus: Os mestres do Movimento da Fé alegam que Deus opera por leis espirituais, e que é obrigado a obedecer aos comandos espirituais dos crentes cheios do Espírito. Ele não só revela a doutrina na prosperidade sobrenaturalmente aos mestres da fé, mas também confirma verbalmente e pessoalmente suas interpretações das Escrituras. [4]

Ensinam também que a aliança de Deus com Abraão é a base com a qual podemos comandar Deus a cumprir sua parte na aliança. Robert Tilton diz que “fazemos nossas próprias promessas e cumprimos nossa parte, e então podemos dizer a Deus, na autoridade de sua própria palavra, o que queremos que ele faça. Isso mesmo, você realmente pode dizer a Deus qual o papel que você quer que ele faca na aliança.” [5] Kenneth Copeland diz que “como crente, você tem o direito de ordenar no nome de Jesus. Cada vez que você se apóia na Palavra, você está até um certo ponto comandando a Deus, porque ela é a Palavra dele.” [6] Copeland chega a dizer até que “Deus foi o parceiro menor e Abraão o parceiro maior” na aliança entre eles.’ [7]

Alguns mestres do Movimento da Fé também apresentam Deus como sendo literalmente um homem de grade estatura. Copeland diz que “Deus é (...) um ser de mais ou menos 1,90m de altura, pesando mais ou menos 90 quilos”. [8] Morris Cerullo, descrevendo uma experiência que diz ter dito fora do corpo, afirma: “De repente, em frente a uma tremenda multidão, a glória de Deus apareceu. A forma que eu vi foi de um homem de mais ou menos 1,80m, talvez mais, e duas vezes mais largo que os corpos humanos, não tendo feições como olhos, nariz ou boca”. [9]

O Homem: Alguns mestres da Fé não só ensinam que Deus é literalmente um grande homem, mas também que o homem é um pequeno deus. Kenneth Hagin disse que “o homem (...) foi criado em igualdade com Deus, e pode estar na presença de Deus sem nenhum sentimento de inferioridade (...) Ele nos fez da mesma classe de seres a qual Ele pertence (...) o crente é chamado Cristo, e é isso que somos; nós somos Cristo”. [10] “O desejo de Deus ao criar Adão foi de se reproduzir. (...) ele não era mais ou menos como Deus. Ele não era quase como Deus. Ele não era nem mesmo subordinado a Deus”. [11] Ele também diz, “Não que você tenha um Deus dentro de você – você é um Deus!” [12] Morris Cerullo diz que “o propósito de Deus foi de se reproduzir (...) vocês não estão olhando para Morris Cerullo, vocês estão olhando para Deus, vocês estão olhando para Jesus”. [13]

Cristo: Alguns líderes do Movimento da Fé comprometem a divindade de Jesus. Por exemplo, Kenneth Copeland, ao contar o que Jesus supostamente disse a ele, afirma: “não se perturbe quando as pessoas acusarem você de pensar ser Deus (...) quanto mais você for como Eu, mais eles pensarão isso de você. Eles me crucificaram por pensarem que eu aleguei ser Deus. Mas eu não aleguei ser Deus. Eu apenas aleguei que eu andava com Ele e que Ele estava comigo”. [14] “Jesus foi na terra apenas um homem, e não o filho de Deus”. [15] Kenneth Hagin diz: “Muitos membros do Evangelho Pleno não sabem, por exemplo, que o novo nascimento é a real participação na natureza divina. Não sabem ainda que são filhos e filhas de Deus tanto quanto o próprio Jesus”. [16] “Eis quem somos: somos Cristo!”. [17] “Vocês são tanto uma encarnação de Deus quanto foi Jesus”. [18]

Expiação: Vários mestres da Fé distorcem a doutrina da expiação. Freqüentemente promovem a heresia de que Jesus morreu espiritualmente, não somente fisicamente. Kenneth Hagin há afirmado que “a morte física não remove pecados”, [19] ou seja, foi necessário que Jesus morresse espiritualmente para que expiasse pecados. “Você acha que a punição para nossos pecados foi que ele morresse na cruz? Se fosse assim, os dois ladrões poderiam ter pago o preço por nossos pecados. Não, a punição foi descer ao próprio inferno e lá cumprir a pena, separado de Deus”. [20]

De acordo com os ensinamentos dos mestres da fé, quando Adão se rebelou, ou “cometeu alta traição”, ele não só traiu Deus ao entregar a Satanás o que Deus lhe tinha dado, mas também assumiu a natureza de Satanás. Assim sendo, para que redimisse a humanidade e a criação do controle legal de Satanás, Jesus, sendo o segundo Adão, tinha que morrer não só fisicamente, mas também espiritualmente. Isso por si só já é heresia. Ainda assim, eles também argumentam que Jesus não só tomou sobre si nossos pecados no calvário, mas também que assumiu a própria natureza de Satanás. “Assim como Adão morreu espiritualmente, Jesus também morreu espiritualmente. A morte espiritual que ele sofreu causou sua morte física (...) quando Jesus aceitou a natureza pecadora de Satanás no seu Espírito, Ele clamou, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” Ele foi separado de Deus (...) e foi conduzido ao fundo do inferno”. [21] “A morte espiritual significa ter a natureza de Satanás”. [22]

Sendo somente um homem na terra, e assumindo a natureza de Satanás na cruz, Jesus se torna simplesmente um pecador que necessita redenção. Na ressurreição, Jesus nasce de novo, das profundezas do inferno: “Jesus nasceu de novo no fundo do inferno (...) a Igreja nasceu quando Jesus nasceu de novo nas portas do inferno”. [23]

Outras Doutrinas

Confissão Positiva: A teologia da Palavra Falada (Rhematologia), ou atualização do pensamento, é normalmente conhecida como confissão positiva. Ela enfatiza o suposto poder inerente das palavras e pensamentos. Cada pessoa predestina seu próprio futuro através de suas palavras e de uma boa administração de supostas “leis espirituais”. [24]

O Evangelho da Saúde: Os mestres da Fé distorcem o significado do capitulo 53 de Isaías, alegando que ele assegura cura física para todo cristão que tiver fé suficiente. “É o plano de nosso Deus Pai, em seu grande amor e sua grande misericórdia, que nenhum crente jamais esteja doente, que todo crente viva sua vida em toda sua completude aqui na terra, e que todo crente, finalmente, simplesmente adormeça em Jesus”. [25] Hagin alega que não tem tido nem mesmo uma única dor de cabeça nos últimos 45 anos. [26]

O Evangelho da Prosperidade: Uma das teses centrais do evangelho da prosperidade é que Deus deseja a prosperidade financeira de todo crente. Se um cristão for pobre, ele está, supostamente, vivendo fora da vontade de Deus. “Você tem que reconhecer que é a vontade de Deus que você prospere”. [27]

Algumas Respostas Bíblicas

1. Deus é Soberano. Somente a Deus compete a soberania sobre todo o universo (1 Tm. 6:15). Deus é Espírito (Jo. 4:24). Não há base bíblica nenhuma para a alegação de que Deus tenha um corpo como parte essencial de sua natureza ou ser. Tal idéia na verdade é defendida pelos Mórmons, e não por cristãos.

2. O homem é único dentre as criaturas, mas não é Deus. O homem foi criado na imagem de Deus (Gn. 1:26, 27; 9:6), mas isso não significa que ele em virtude disso seja um “pequeno deus”. Deus, por definição, é um Ser que não foi criado, possuindo asseidade (i.e., auto-existência). Somente Ele possui a natureza divina. O homem é um ser finito e criado (Is. 43:10, 44:6; 45:5-6; Ez. 28:2; Os. 8:4-5).

3. Jesus Cristo é eterno, o Filho unigênito de Deus. Jesus é a Segunda Pessoa da Trindade, e somente Ele, sendo Deus, se fez carne (Jo. 1:1, 2, 14, 15, 18; 3:16). Somente nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade (Cl. 2:9). Ao assumir a natureza humana com suas limitações (Fl. 2:6-8) Jesus não deixou de ser Deus na sua natureza divina (Jo. 8:58; 17:5; 20:28-29).

4. A expiação de pecados foi feita por Jesus na cruz; sua morte física foi o pagamento completo e final pelos pecados daqueles que nele crêem. Em Jesus nunca houve pecado (Hb. 4:15). Os pecados daqueles que nele crêem foram imputados a Jesus na cruz, para que seu sacrifício expiasse por eles (Hb. 9:14-15; 10:1). Isso de maneira nenhuma significa que ele tivesse que morrer espiritualmente, como se ele próprio tivesse pecado. Seu corpo era mortal, mas seria impossível que seu espírito morresse, já que o espírito é essencial à pessoa (o corpo não), e essa Pessoa é Deus. Ao morrer na cruz, Jesus pagou completamente o preço (Jo. 19:30). As Escrituras declaram explicitamente que, após ter morrido fisicamente na cruz, Jesus foi imediatamente para o paraíso (Lc 23:43), ou seja, a presença de Deus (2 Co. 12:2-4). O próprio Jesus nos comanda a celebrar a expiação por nossos pecados na Ceia do Senhor, que diz respeito ao seu corpo partido e seu sangue derramado (1 Co. 11:23–26: Mt. 26:26–28; Mc. 14:22–24; Lc. 22:17–20), e não a uma suposta morte espiritual. Seu sacrifício na cruz foi o pagamento completo e final por nossos pecados (1 Pe. 2:24; Cl. 1:20-22; Hb. 10:10, 12, 14, 19-20).

5. Deus é o único que pode criar realidade através da sua palavra. Somente Deus cria. Somente Deus governa os eventos de sua criação pela sua palavra (Gn. 1:1; 3; 42:2; Sl. 127:1-2; Pv. 16:9; 19:21; 20:24; Is. 14:27; 44:7; 46:10; 55:11; Dn. 4:35; Ef. 1:11). Deus é soberano.

6. Muitas vezes é da vontade perfeita de Deus que seus mais amados servos passem por todo tipo de tribulação, incluindo doença e pobreza. Deus não nos faz nenhuma promessa de que se formos fiéis, nossa vida nesse mundo será sem dificuldades e tristezas. Pelo contrário, Jesus nos diz que teremos tribulações (Jo. 16:33). Paulo e Timóteo tiveram enfermidades (Gl. 4:13-14; 1 Tm. 5:23). Paulo enfrentou abundante tribulação (2 Co. 6:4-10; 11:23-33; 12:7-10). O próprio Jesus era pobre (Lc. 2:21-24; Lv. 12:6-8). Ainda que não há nada de errado em ser rico (se essa for a vontade de Deus para um indivíduo), o desejo pela riqueza é idolatria (1 Tm. 6:5-11; Hb. 13:5; Lc. 12:15; Cl. 3:5; 2 Pe. 2:3; Fl. 4:11).



[1] H. Terris Neuman, An Analysis of the Sources of the Charismatic Teaching of Positive Confession, p. 43

[2] Sherry Andrews, “Kenneth Hagin – Keeping the Faith,” Charisma, outubro de 1981, p. 24

[3] Kenneth Hagin, Jr., Charisma, “Trend Toward the Faith Movement,” agosto de 1985, pp. 67–70

[4] Copeland, Laws of Prosperity, pp. 60–62.

[5] God’s Miracle Plan for Man, p. 36..

[6] Our Covenant with God, p. 32

[7] Copeland, Legal and Vital Aspects of Redemption, 1985, fita #01-0403.

[8] Spirit, Soul, and Body, 1985, fita #01-0601.

[9] The Miracle Book, pp. x-xi.

[10] Zoe: The God Kind of Life, pp. 35–36, 41.

[11] Copeland, Following the Faith of Abraham, 1989, fita #01-3001.

[12] Copeland, The Force of Love, 1987, fita #02-0028.

[13] The End Time Manifestation of the Sons of God, fita 1, lados 1 e 2.

[14] Copeland, “Take Time to Pray,” Believer’s Voice of Victory, #15, 2 de fevreiro de 1987, p. 9.

[15] Frederick K.C. Price, fita  #RP 19, maio de 1993.

[16] Hagin, Zoe: A Própria Vida de Jesus, p. 55.

[17] Hagin, Zoe: A Própria Vida de Jesus, p. 57.

[18] The Word of Faith, dezembro de 1980, p. 14.

[19] Hagin, O Nome de Jesus, p. 26.

[20] K. C. Price, Ever-Increasing Faith Messenger, junho de 1990, p. 7.

[21] Kenneth Copeland, Classic Redemption, p. 13.

[22] Hagin, O Nome de Jesus, p. 26.

[23] Charles Capps, Authority in Three Worlds, pp. 212–213.