A Triste Busca de Paulo Coelho



Mark Carpenter

Há alguns anos li quatro livros de Paulo Coelho de uma só vez, a fim de redigir uma resenha para a saudosa revista Vox Scripturae. A imersão no disforme submundo literário do autor não me fez bem, pois senti-me arrastado para o desespero camuflado de um escritor espiritual que não consegue articular o objeto de sua fé. Paulo Coelho crê apenas no sobrenatural genérico, e o grande tema que acaba atravessando toda a sua obra é a melancólica solidão de quem se recusa a comprometer-se. Seu sincretismo sombrio não econtra porto seguro onde atracar, e assim o autor atravessa os mares da literatura como alma penada.

O mais autobiográfico de seus livros é O Zahir (Rocco, 2005). Nele a descrição física do personagem principal retrata o próprio autor. Suas trajetórias de vida se confundem. Para não deixar nenhuma dúvida, no passado distante desse protagonista há até uma parceria de criação artística com um roqueiro misterioso da época hippie. Só faltou descrever o cavanhaque de Raul Seixas.

O título faz referência a uma palavra árabe que significa visível e presente. De acordo com Fauborg Saint–Pères, citado pelo autor, na tradição islâmica, zahir é “algo ou alguém que, uma vez que o contactamos, acaba por ir ocupando pouco a pouco o nosso pensamento, até não conseguirmos concentrar-nos em mais nada” (Enciclopédia do Fantástico, 1953). O zahir do protagonista é a própria mulher, Esther, que desaparece na primeira página do livro, sem deixar vestígio, no melhor estilo dos romances policiais. Ao longo da narrativa o foco de seu zahir muda e se adapta, até incorporar, previsivelmente, a obsessão pelo equilíbrio sobrenatural.

O protagonista d’O Zahir reclama da rejeição dos críticos a seus livros, atribuindo-a à inveja – “detestam quem vende muito”. Com essa obra, entretanto, Paulo Coelho mune seus críticos de mais algumas toneladas de artilharia. O livro está repleto de descrições apressadas, clichês dos mais banais (“carrego as minhas cicatrizes como se fossem medalhas”; “tenho de mover céus e terra para a encontrar”), personagens estáticos e bidimensionais, diálogos inverossímeis, sem mencionar a pobreza de expressão, igualada apenas pela paupérie do enredo. O desfecho precoce e mal resolvido leva o leitor a um só pensamento: “Quanto foi mesmo que gastei para comprar este livro?”.

Há quem perdoe problemas estruturais quando o conteúdo ou a mensagem compensa. No entanto, o leitor que busca insights espirituais neste livro só conseguirá chegar a duas conclusões: Deus se revela apenas a quem abandona a religiosidade e a quem sai do Brasil. Quanto mais impronunciável o nome da doutrina e do lugar geográfico, mais provável a presença das grandes respostas.

O mais lamentável é que Paulo Coelho aparenta absoluta sinceridade em seu trabalho e em sua busca pela iluminação espiritual. A leitura de toda a sua obra revela uma mariposa que vagueia em volta das luzes e que se deslumbra com qualquer faísca, lampejo ou pirilampo. Não creio que o ilustre mago se aproveite cinicamente da espiritualidade superficial de seus milhões de leitores. Ele apenas não compreendeu ainda que as respostas não estão na justaposição perfeita de todas as crenças e religiões, mas na absoluta escolha da fé verdadeira.


Mark Carpenter é diretor–presidente da Editora Mundo Cristão e mestre em letras modernas pela USP.

Fonte: Revista Ultimato, no 295, julho–agosto 2005, p.58.

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